terça-feira, 17 de novembro de 2009

Happy hour em Bangu e os porcos de Duque de Caxias


Como terminei um dos últimos feriados entornando litros de chope no bairro mais quente do Rio de Janeiro é uma longa história. Vou contar aqui um pedacinho dela, mas só depois de comentar sobre esse lugar fantástico na zona oeste da Cidade Maravilhosa, o Bangu Shopping. Trata-se de uma construção de 1889 que abrigou a maior indústria têxtil da região, a Fabrica de Tecidos Bangu – empreendimento em parte responsável pela formação da comunidade mais populosa do Rio. A fábrica parou de funcionar em 2005 e a estrutura que a abrigava poderia desaparecer. A gente sabe que aqui a memória, paradoxalmente, toma o rumo do esquecimento. Mas essa imensa construção teve um destino diferente. Em 2007 foi transformada em shopping center, cuja reforma manteve as características originais do projeto original.

O resultado é uma construção em estilo inglês, toda de tijolinhos, muito bonita mesmo. Pelo menos na parte de fora e em parte da área interna, destinada aos bares e restaurantes. De resto, o centro comercial tem absolutamente tudo que qualquer shopping tem: lojas de departamentos, de eletrodomésticos, empresas de telefonia, redes de farmácias...um saco para quem, como eu, detesta shopping centers.
Depois de admirar a belíssima estrutura externa nos aboletamos num simpático restaurante, batizado com o nome de Beluga e que, estranhamente, não tem nem sardinhas no cardápio. Mas tudo bem. A fome só veio bem mais tarde. O que importava era entornar as torres do bom chope Itaipava servidas a preço promocional. Explico: a cada torre de três litros de chope, a segunda era de graça. Pelas contas foram 12 litros, divididos por cinco pessoas, ou seja 2,4 litros por cabeça - sim, essa mesma que acordou latejando na manhã seguinte.

Tudo culpa dos porcos de Duque de Caxias.
Antes do festival de chope, passamos parte da tarde em Duque de Caxias, nas cercanias do aterro sanitário de Gramacho, segundo a Wikipédia, o maior da America Latina. No terreno de 1,5 milhão de metros quadrados são despejados todos os dias mais de sete mil toneladas de resíduos. A maior parte vem da cidade do Rio de Janeiro. Antes de chegar na rua Monte Castelo, a principal do bairro, avistamos faixas penduradas em postes e casas pedindo ao governador que regularize o fornecimento de água. Deveriam pedir também a melhoria do ar. O cheiro é insuportável. Gramacho é também o centro de reciclagem de plásticos da região. Ali vivem catadores de lixo, que retiram seu sustento das montanhas de detritos. Paga-se em média R$ 0,40 por quilo de garrafas pet, R$ 1,00 por garrafinhas brancas como as de cândida e R$ 0,15 por quilo de pára choque de automóveis. Calotas, garrafas de óleo, latinhas, papelão, tudo tem seu preço tabelado.

Também andam por lá os industriais e magnatas do lixo. Vi pelo menos um deles, que atende por um diminutivo. Os dois seguranças que ladeavam a Pajero blindada do empresário se ouriçaram com a aproximação do nosso carrinho mil cilindradas. Achamos conveniente não parar.O processo da reciclagem, da cata manual à fabricação de novos produtos que também vão ser jogados no lixo, mais dia menos dia, segue um ciclo que não tem fim. O catador vende para o sucateiro. O sucateiro vende para o material separado para a empresa que vai fazer a primeira etapa da reciclagem, a lavagem e moagem do material. O material separado, lavado e moído é passado para outra empresa que por meio de uma máquina extrusora derrete o plástico transformando-o em pellets - bolinhas minúsculas, como contas de miçangas. Aí sim esse material retirado do lixão vai se transformar em sacolas de supermercados, baldes, bacias... que em em breve vão parar de novo no lixão e pode recomeçar a contar a história desde o começo.

Um desses industriais é um chinês que sabe-se lá como foi parar em Duque de Caxias. Está lá há décadas, fala pouco e apenas arranha o português. Mas é criativo e consegue fabricar máquinas para a extrusão de todos os tipos de plásticos a bons preços. A princípio pensávamos que ele trabalhava com o irmão, um outro senhor chinês, magrinho e mais calado ainda. Mas ele negou o parentesco. "É meu conterrâneo". Sim, ele não disse contelaneo, nem meu bro, meu chapa, meu mano ou meu sócio. Aprendeu pouco, mas aprendeu certo.

Não tirei fotos porque tive medo. Me acovardei diante da multidão maltrapilha, do mau cheiro, da miséria. Não queria abrir a bolsa. Só depois me dei conta da bobagem: a máquina fotográfica, a carteira, a bolsa, o tênis besta, em breve estará tudo lá, nesse ou em outro lixão.
E me arrependo muito disso, principalmente por causa dos porcos. A primeira que vi era uma leitoa. Devia ter cerca de um ano e pesava uns bons 50 kg. Debaixo da sujeira podia ser branca ou bege clara. De longe, a impressão que se tinha é que ela usava uma focinheira. De perto (mas não muito perto) dava para perceber que a marca mais escura em torno do focinho eram os restos dos restos de comida, escarafunchada pelo animal em meio aos montes de lixo. Quando nos preparávamos para deixar a cidade, nosso carro quase que atropela o companheiro da leitoa, o que provocaria um conflito entre o motorista desatento e os moradores e donos dos bichos, que nem o próprio Duque, vitorioso na Batalha do Avaí, seria capaz de apaziguar.
O casal de porcos passeia livremente no entorno de Gramacho. Engorda. E depois... Não, não posso nem imaginar. Vou beber mais chope...


Postado por Alê

2 comentários:

Heloisa disse...

fazia tempo que eu não vinha aqui no blog! acabei de falar com o celso e resolvi dar uma conferida, me dei conta que estou lendo aqui há mais de hora e adorando!
ah que saudades de vcs aqui pertinho e todas essas histórias e receitas sendo contadas e apreciadas na mesa! quanta risada!
vai pensando em alguma coisa gostosa pra fazer eu fotografar e, certamente, assaggiare! hummmm a presto, carissimi! tanti baci
PS: se tiver algo que vcs querem que eu leve pro jantar, é melhor pensar e pedir logo!!!

Alessandra Porro e Celso Cury disse...

ÊEEE!!! Estamos contando os dias! Vamos caprichar no menu e depois te falo ! Beijos e saudades...