segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Um livro para uma ilha deserta


Me desfiz de muitos livros nas mudanças que fiz nos últimos tempos. Mas alguns me acompanham há anos e não consigo me desapegar. Entre eles, uma centena de livros de receitas realmente bons, alguns volumes sobre História, literatura e jornalismo. Há também aqueles que fogem de classificações, como esse Ricettario Domestico (Receituário Doméstico), publicado em 1913 por Ulrico Hoepli, em Milão.
A editora, fundada em 1870, existe até hoje (veja o site) e publica dicionários, livros técnicos e manuais, exatamente como fazia há mais de 100 anos. Esse volume, escrito por Italo Ghersi, ainda consta do catálogo da editora, mas está esgotado. Trata-se de um tijolinho de 15 cm de altura, por 10 cm de largura e 5 cm de espessura. E entrega as 5.744 "receitas" que promete na capa. Mas não são só receitas de comida. São receitas para tudo. É como um google portátil, que antigamente se chamava de almanaque.
Ele foi editado em tópicos por ordem afabética para facilitar a localização das informações em suas 1.195 páginas. É informação prá dedéu, posicionada de maneira a garantir diversão extra. Assim: o verbete "café" que traz dicas de plantio, colheita, torrefação, blends, conservação, como identificar falsificações, como preparar licor e extratos, entre outros é seguido pelo verbete "calendário perpétuo". Aqui são reproduzidas duas tabelas e as fórmulas para se descobrir, por exemplo, qual era o dia da semana em 20 de julho de 1899. O autor afirma que foi uma quinta-feira. Eu fiquei zonza com os cálculos, mas quem quiser, que tire a teima.
Acho que se estivesse numa ilha deserta - não nas Seychelles, nem no Club Med - um livro que ensina a fazer um filtro de água com areia e construir uma cisterna, ou carnear, conservar e curar o couro de animais selvagens sem nenhum auxílio de técnicas modernas, seria utilissimo. Tipo, um Manual do Escoteiro Mirim, mas para adultos.
Além dos itens práticos, existem verbetes que adoro pelo simples fato de revelarem as preferências e as preocupações de uma outra época, nem tão distante assim. Alguns são divertidos, outros assustadores. Separei alguns exemplos:

Para cachear os cabelos: antes de dormir basta escová-los e passar sobre os fios um pano com uma mistura feita com a clara de um ovo, quatro gramas de açúcar e uma colher de vinho. Depois faça rolinhos com papelão que se retiram ao acordar.
Se você se cansou da chapinha japonesa, já sabe...

Pólvora: o material de qualidade deve ter coloração cinza escura. Quando é azulada ou negra contém muito carvão. Uma cor preta indica umidade. Os grãos devem ser uniformes e resistentes quando esmagados. A pólvora que produz traços amarelos ao queimar possui muita sulfa.
Ainda estou me perguntando qual o uso doméstico da pólvora.

Aspargos: Antes de falar do cultivo, colheita e conservação desse vegetal, o autor refere-se ao odor forte deixado na urina após o consumo de aspargos frescos. Para minimizar o problema, recomenda que os penicos usados de noite sejam antes borrifados com terebentina.
Penicos! Penicos!

Cicuta: a planta é muito semelhante à salsinha. Mas não deve ser usada como o tempero. Seu sabor é desagradável e o odor, muito forte. E nem é preciso dizer que é venenosa.
Será que deram o chá errado para o Sócrates?

Cartas invioláveis: o livro indica quatro maneiras infalíveis para que as cartas não sejam abertas por outras pessoas além dos destinatários. Uma delas diz para pincelar a aba do envelope com uma mistura de partes iguais de água e clara de ovo. Pressionar apenas uma vez com um ferro de passar (a carvão) levemente aquecido e selar com cera. Ele garante se alguém tentar abrir esse envelope com vapor, a albumina da clara muda de cor e deixa o bisbilhoteiro em maus lençóis.
No email não funciona...

Lampiões: para evitar o mau cheiro, usar somente azeite de oliva como combustível e estopins finos.
Eu despejava o lampião na salada...

Lubrificantes: são indicados diversos tipos para diferentes utensílios. Relógios de corda se dão bem com azeite de oliva ou óleo de amêndoas. Para máquinas de escrever e bicicletas, melhor óleo de ossos ou de pés de boi. Para armas e torneiras ele recomenda uma mistura feita com 35 g de resina, 600 g de gordura de boi, 130 g de cera amarela, 130 g de essência de terebentina, 130 g de azeite de oliva e 250 g de banha de porco. Basta esquentar todos os ingredientes até o ponto de fusão.
Tudo era de ferro. Imaginem a vida sem plásticos?

Elixir de coca: a bebida é feita macerando-se 60 g de folhas de coca em 120 ml de álcool de cereais a 60 graus durante 12 horas. Passado esse tempo, junta-se 500 ml de Vinho Málaga Branco e deixa-se descansar por 8 dias. Coa-se bem o líquido, espremendo as folhas e acrescenta-se a essa mistura 350 ml de xarope de açúcar. Completa-se com água destilada até se obter um litro de líquido. O autor explica que a bebida age como um tônico e seu consumo deve ser de dois a três cálices ao dia.
Ele não explica se a receita é boliviana...

Quartos frescos no verão: nos dias quentes, abrem-se as janelas e penduram-se nelas, como cortinas, panos molhados. A evaporação da água reduz o calor interno, tornando o ambiente mais fresco.
Tipo assim, o trisavô do ar-condicionado.

Gelo: Infelizmente o autor não ensina a fazer gelo sem geladeira. Desconfio que vinha mesmo das montanhas. Entretanto, há muitos conselhos para sua conservação: envolver as barras de gelo em almofadas de plumas, ou guardar no porão embrulhadas em cobertores de lã, sob estratos de serragem. Ele alerta para o abuso do sorvete feito com o gelo durante os meses de verão. Aponta o item como causador de dispepsias - palavrinha antiga para a indigestão - e como prejudicial ao esmalte dos dentes (?). Seu uso medicinal é amplo: serve para aliviar golpes de calor, convulsões, delírios, cefaléias, otites, insônia e meningite (as simples e as tuberculosas). Ah: uma bolsa de gelo é útil no tratamento de hemorragias cerebrais, mas pode causar danos se a pessoa estiver pálida.
Quando leio essas coisas me pergunto como é que nossos avós sobreviveram para procriar.

Depiladores: Ele aponta dois tipos de preparações, em pó ou em pasta. A primeira, que dissolve os fios indesejados, é feita com uma mistura de 16 g de cal viva, 10 g de amido e 2 g de sulfeto de arsênico. Mistura-se com água apenas no momento de usar. E deve-se evitar aplicar na pele com cortes, pois o arsênico é extremamente venenoso e pode matar.
Fala sério! Arsênico? A observação ai de cima vale aqui também....

Tintura de cabelos: a menos que o branqueamento dos fios seja decorrente de doenças, o autor indica pelo menos 30 receitas para tingir os cabelos, respeitando-se as tonalidades naturais. Não dá para reproduzir tudo aqui, mas a título de curiosidade, seguem alguns ingredientes para o tratamento. Cabelos negros podem ser tintos com nitrato de prata, àgua destilada e amoníaco ou uma mistura de permanganato de potássio e hipossulfito de sódio. As castanhas preparam primeiro um extrato com cascas de nozes verdes, que depois é acrescido de glicerina e água. As loiras podem usar a boa e velha água oxigenada.
Ai meu couro cabeludo....

Notas de dinheiro: ele recomenda conservar notas de dinheiro, promissórias, cheques e outros documentos entre folhas de amianto unidas como num livro. O autor avisa que essse método é muito comum na Alemanha e bastante eficaz em caso de incêndios.
Depois de depilar as pernas com arsênico, guardar dinheiro no amianto é fichinha...

Pomada para bigodes: nesse verbete também existem várias fórmulas para "manter lustroso e dar forma ao bigode". Uma delas leva 10 g de espermacete de baleia, 80 g de cera branca, 150 ml de agua de rosas, 60 g de pó de goma arábica, 40 g de sabão, 30 g de glicerina, 5 g de óleo de essencia de bergamota e 5 g de óleo de essencia de gerânio. A mistura deve ser bem agitada duas vezes por semana durante um mês.
É por essas e outras que quando me dizem que a vida antigamente era melhor, eu rolo de rir...

Postado por Alê

Um comentário:

Moema disse...

Incrível!! Adorei, beijos