quinta-feira, 21 de maio de 2009

Um dedo de prosa

De vez em quando fico agradavelmente surpresa ao abrir meu email, cujo endereço está aqui no blog, no Perfil e encontrar mensagens de pessoas que não conheço e, de uma maneira ou de outra, tropeçaram nessa página e gostaram do que leram. E eu que achava que estava escrevendo só pra Dani, pra minha mãe, pra Helô, pra Moema e pro Celso...
Alguns vêm com desabafos. Acredito que é por isso que o pessoal prefere mandar emails a deixar um comentário no próprio blog.
Há quem fique furioso ao comprar todos os ingredientes para fazer uma receita de algum restaurante famoso, publicada em alguma revista ou jornal, que no fim ou não dá certo ou fica muito aquém do esperado. E eu sempre me lembro das famosas fichas de culinária de uma revista francesa, dos anos 70. Quando passaram a ser publicadas no Brasil, nos anos 80, a tradução era uma coisa assombrosa. Tinha uma receita, cujo original levava dois pimentões vermelhos que na tradução viraram duas pimentas dedo-de-moça, além do armagnac, transformado em cidra. É, acontece.
Existe também o que eu chamo de sonegação de informação - intencional ou não. Ela ocorre quando um repórter vai entrevistar um cozinheiro que acaba passando as informações pela metade. Às vezes ele nem se dá conta que esqueceu um ou dois ingredientes. Ou acredita que todo mundo sabe como se faz um roux básico. E o pobre repórter que não tem a menor intimidade com a cozinha não se dá conta do que está apurando.
Para finalizar, existe a questão do equipamento. Gente, um assado preparado num forno convencional nunca vai ficar igual ao preparado num forno combinado, usado por restaurantes. Se você quiser colocar essa jóia na sua cozinha prepare-se para desembolsar em R$ 25.000,00 e R$ 100.000,00. Por que vale a pena para o restaurante e não para você? Fornos profissionais geram economia de mão-de-obra (fazem quase tudo sozinhos, ninguém precisa ficar mexendo no termostato ou regando com molho, podem ser programados para assar e dourar peças inteiras de carne) e economizam a matéria prima (já viu aquela maminha diminuir em um terço ao ser assada? Multiplique esse um terço por dezenas de assados...no forno combinado a perda de líquidos e o tempo de cozimento é muito menor, ou seja, economia - de carne e eletricidade - para o restaurante que vive disso). Com pães e pizzas é a mesma coisa. Fazer a massa é simples. A diferença é assar a mesma no seu forno ou no da pizzaria, à lenha, que funciona ininterruptamente sete dias por semana.
Não dá para competir, né?
E nem precisa. Nem pode ser desculpa para jogar o avental de lado e desistir da aventura na cozinha, a de que a tal receita do livro "nunca fica igual" ao prato degustado em outra ocasião. Qual a graça de fazer tudo sempre igual? É como na vida: quantas vezes a gente não tenta repetir um programa que foi gostoso, mas não dá certo. E nem é ruim. É só diferente.
Se a tal da receita não deu certo, invente outra. Acho que o mais importante de tudo é criar uma intimidade com a cozinha e com os ingredientes. Partir das coisas básicas, ler e compreender nas entrelinhas das receitas os procedimentos-padrão para a transformação dos alimentos. E se divertir muito, que afinal de complicada já basta a vida, não é não?



Postado por Alê

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