segunda-feira, 20 de abril de 2009

História no prato

Gente eu sei! Para quem reclamou (com razão) do atraso nas postagens, minhas sinceras desculpas. Me envolvi em um novo projeto no final do ano passado e até agora estou procurando mais horas nos dias, mais dias na semana, para dar conta de tudo.
Mas uma notícia no jornal italiano La Repubblica me deu um comichão danado e cá estou de novo, mesmo que rapidinho, só pra comentar.
O jornal informa que a prefeitura da cidade de Lucca, na Toscana, no norte da Itália, vai proibir restaurantes etnicos em seu centro histórico. Segundo o jornal, a medida visa salvaguardar o patrimônio gastrônomico, cultural e arquitetônico - sim, decoração e mobiliário também estão na pauta da fiscalizaçao. Os primeiros na linha de corte são as casas de kebabs, mas entram na lista restaurantes mexicanos, chineses e franceses, entre outros.
Também os restaurantes italianos terão que se adaptar. No menu deve constar pelo menos um prato típico luccano. Bom, que os italianos são incrivelmente chatos quando se trata de preservar a cultura gastronômica local não é novidade. E quando digo local é local mesmo: um prato que se faz em Bologna não se faz em Modena, cidade que dista poucos quilômetros.
Como turista, gosto desse zelo em manter as origens e tradições. Como italiana, acho que esse é o tipo de medida que faz dos meus patrícios pessoas com enormes bloqueios para conhecer outras culturas, outros sabores. Como brasileira, acredito que um meio termo é possível. Podemos conviver com uma deliciosa miscelânea de culturas, suas adaptações e encontrar preciosidades onde menos se espera.
Um exemplo. Há poucas semanas estive em Paraibuna, cidade fundada no século XVII, no Vale do Paraíba. Paramos para almoçar no restaurante Casarão, ao lado da igreja matriz. No cardápio, como era de se esparar, o restaurante oferecia Filé a Parmigiana. Preciso contar que esse, talvez o mais famoso exemplo de adaptação de um prato italiano, já foi motivo de um grande mico - pago com juros e dividendos - em Parma mesmo. Celso, meu parceiro no crime, Heloisa, minha cunhada do coração e eu queríamos porque queríamos comer um filé parmigiana lá, onde ele supostamente teria sido criado. Mas foi impossível: o prato que existe é a beringela parmigiana, filé nem pensar.
Dito isso, de volta à Paraibuna, vi no tal cardápio um prato que não conhecia: um tal de Afogado. Já comecei a salivar na descrição do preparado: músculo cozido no caldo de mocotó com temperos, servido com farinha de mandioca e arroz. Apesar do calor de mais de 30 graus, não resisti. Tinha que provar. E não me arrependi. O prato é uma delícia. Só fui descobrir depois que a receita do Afogado foi "tombada" pela Camara Municipal de Paraibuna como prato típico da região. DOC nacional legítimo! Adorei. Ainda não fiz a receita em casa, mas reproduzo aqui a que está no site da Camara.
E torço para descobrir mais dessas receitas criativas, carregadas tanto de tempero quanto de história. Mas sem decretos, por favor que nossa miscelânea cultural na cozinha é uma delícia.


2 comentários:

Alessandra disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Alessandra disse...

Putz, esse post foi publicado em janeiro... fui editar - corrigir umas vírgulas - e a foto sumiu, a data mudou e não consigo colocar a formatação do texto igual aos post do blog! O pior de tudo é que sumiu o cometário fofo da Helô... eu hein...