domingo, 16 de novembro de 2008

O samba do maltês doido

Quando estive em Malta, no começo deste ano, meus conhecimentos sobre o pequeno país no mediterrâneo, entre a costa da Sicilia e da Líbia, resumiam-se ao título do livro do Dashiell Hammett, O Falcão Maltês e a Ordem dos Cavaleiros de Malta. A grande Cris Ramalho me lembrou que a ilhota de 300 quilômetros quadrados e cerca de 400 mil habitantes, foi cenário das aventuras da agente secreta mais sensual do mundo, a extravagante Brigitte Monfort, imortalizada pelo prolífico Hélio do Soveral. E só.
Desembarquei no começo de fevereiro, para ser tutora de uma turma de alunos do curso de Ristorazione de Bologna, ganhadores de uma bolsa de estudos e selecionados para fazer um estágio de cinco semanas no restaurante do melhor hotel da ilha, o Westin Plaza. E enquanto eles ralavam seus dois turnos na cozinha, eu tive quase dois meses para conhecer o país.
Entretanto, depois de uma semana, já havia cruzado a diminuta ilha de leste a oeste, de norte a sul, inclusive Gozo e Comino, ilhotas adjacentes. Colônia inglesa até 1964, membro da União Européia desde 2004, a minúscula república atrai estudantes de todo o mundo como uma opção mais barata do que o Reino Unido e os Estados Unidos para aprender inglês, a segunda língua falada lá. O maltês, o idioma oficial do país, é uma língua semítica, parecida com o árabe, cuja escrita usa caracteres ocidentais. Seu som é uma coisa muito esquisita. Pensem num irlandês ou caipira falando árabe. Imaginou todos aqueles “erres” bem puxados? É mais ou menos isso. E graças às constantes invasões e dominações, o vocabulário é coalhado de palavras em italiano, espanhol, francês e, obviamente, inglês.
Na cozinha é a mesma coisa. Malta importa mais de 80% dos produtos de consumo e graças à proximidade da costa italiana, os supermercados estão cheios de produtos tricolores como massas, molhos, frios. Os ingleses entram com o farto café da manhã e o fish & chips, os árabes com os kebabs encontrados em cada esquina. Não tenho certeza de onde vem a preferência dos ilhéus pela carne de “fenek” ou coelho. Provavelmente pelo fato de coelhos não nadarem e se reproduzirem com uma rapidez fantástica. O preparo mais comum dessa carne, marinada com vinho e alho, me parece nitidamente francês. Outra explicação para a popularidade da carne de coelho pode ser explicada pela religiosidade da população. Mais de 99% da população é católica de carteirinha e a carne branca provavelmente obedece aos critérios da proibição do consumo de carne vermelha nos dias considerados santos.
Porém, confesso que fiquei encantada com outra iguaria típica, encontrada em todos os lugares, o dia inteiro: pastizzi e qassatat. É como eles chamam os salgadinhos feitos com uma espécie de massa de pão ou folhada, recheados de ricota ou creme de ervilhas. Olhava aquelas vitrines e me esbaldava lembrando nossas esfihas, bauruzinhos, enroladinhos de salsicha...
Antes de deixar a receita do coelho, que precisa ser marinado na véspera, algumas curiosidades da ilha que deixou saudades:

- O pão maltês é uma delícia, sai três vezes por dia nas padarias de bairro e deve ter algum segredo que os padeiros não contam para deixá-lo com uma crosta saborosa por fora e um miolo macio que só vendo. Mas no dia seguinte você pode calçar portas com o que sobrou, vira uma pedra.
- Os malteses dirigem tão mal quanto os italianos – e do lado direito como os ingleses. Dá medo mesmo!
- Os motoristas de ônibus malteses são muito corteses. Mas a cortesia é mais siciliana do que inglesa.
- Comparado com o resto da Europa, o custo de vida em Malta é baixíssimo. Por isso, a ilha virou reduto de ingleses aposentados que preferem passar lá o inverno.
- Os malteses até sabem falar inglês. Mas todos se comunicam em maltês.
- Todo homem maltês usa brinco de argola. Grandes. Geralmente nas duas orelhas.
- As mulheres maltesas são muito bonitas até os 25 anos. Depois viram sicilianas.
- A maioria dos malteses com quem falei conhecia o Brasil graças à novela Dancin Days, sucesso do Gilberto Braga de 1978, exibida no horário nobre quando estive lá. Acreditam que todas brasileiras se vestem como a Julia Mattos – personagem da Sonia Braga - e acham o figurino um luxo!
- Caravaggio morou em Malta. A Catedral de São João, na capital Valetta, exibe o belíssimo São Jerônimo. De arrepiar.
- Um livro interessante para entender o passado de Malta é A Religião, de Tim Willocks, lançado aqui pela Ediouro.
- O nome latino de Malta era Melitta. Ó!
- Um dos filhos ilustres da terrinha é o cartunista Joe Sacco, autor de Palestina.

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